O esgotamento da cota anual de importação de carne bovina brasileira com tarifa reduzida pela China já começa a provocar reflexos na indústria frigorífica nacional. Com dificuldades para redirecionar o volume destinado ao principal comprador da carne brasileira, empresas reduziram o ritmo de produção, concederam férias coletivas e já pressionam o mercado do boi gordo.
O alerta foi feito pelo presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, que reconhece que o setor atravessa um período de adaptação diante da nova realidade das exportações. Segundo ele, não existe, no curto prazo, mercado capaz de absorver o volume anteriormente destinado aos chineses.
A China estabeleceu para 2026 uma cota de aproximadamente 1,1 milhão de toneladas de carne bovina brasileira com tarifa reduzida. No ano passado, porém, o Brasil exportou cerca de 1,7 milhão de toneladas ao país asiático. Com o limite atingido, os embarques excedentes passam a enfrentar uma tarifa próxima de 67%, tornando boa parte das operações economicamente inviáveis.
O impacto já começou a ser sentido no mercado interno. Segundo a Abiec, frigoríficos diminuíram as escalas de abate e a arroba do boi apresentou recuo nos últimos dias, consequência da redução na demanda da indústria.
Mais do que uma oscilação conjuntural, o episódio reacende críticas à condução da política comercial do governo federal. Representantes do setor afirmam que o problema era previsível e defendiam, desde o início do ano, a criação de um mecanismo de gestão das exportações para a China, capaz de distribuir melhor os embarques ao longo do ano e evitar o esgotamento precoce da cota.
A proposta, entretanto, não avançou. Segundo Roberto Perosa, a ausência desse instrumento deixou a cadeia produtiva sem alternativas quando o limite foi alcançado, obrigando frigoríficos a reduzir operações e buscar novos mercados em um espaço de tempo insuficiente.
A dependência brasileira do mercado chinês também volta ao centro do debate. Hoje, a China responde pela maior parte das exportações nacionais de carne bovina, e especialistas do setor já alertavam, desde março, que a cota poderia ser atingida ainda em julho. Mesmo diante desse cenário, não houve uma estratégia pública capaz de minimizar os impactos sobre a indústria e os produtores.
Embora entidades como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) avaliem que o mercado chinês não esteja fechado definitivamente e busquem alternativas para manter os embarques, o consenso é que substituir, no curto prazo, um comprador desse porte é praticamente impossível.
O episódio evidencia um desafio estrutural para o agronegócio brasileiro: ampliar a diversificação de mercados e fortalecer mecanismos de planejamento comercial capazes de reduzir a vulnerabilidade do setor diante de decisões de grandes parceiros internacionais. Enquanto isso não ocorre, a indústria e os pecuaristas passam a absorver os custos de uma crise que, segundo lideranças do segmento, poderia ter sido mitigada com maior coordenação entre governo e iniciativa privada.